Administra o teu Blog

Cria o teu Blog Já! Fácil e Grátis

entre vazios

Arquivo: Novembro 2006

30/11/2006 GMT 1

Todos os dias alguem amanhece

venoi @ 20:21

Todos os dias alguém amanhece,
memória verde.

Uma colina extensa
sentada na branca audácia da côr.

Uma voz
uma vez
e de súbito na carne
a coisa própria
os dedos
os dias
as formas
todos os nomes enfeitados de sangue
a água escorrendo nos dias
quando alguém amanhece.

Venoi

21/11/2006 GMT 1

Dai-me uma mulher

venoi @ 10:04

Dai-me uma mulher.
Com ela inventarei deus
e gritarei gritos de espanto.
Dai-me uma mulher
e inventarei o homem
naquilo que o mais íntimo e um qualquer olhar vazio
se insinua.

Venoi

10/11/2006 GMT 1

Sei lá quantos são

venoi @ 20:52

Eram três meninos, eram vinte, muitos mais.
Eram três meninos
e nos seus olhos já pouco brilhavam as águas.

Olhavam com aquele estilo amargo
de muitos anos
e horizonte boquiaberto de espanto.

Eram três meninos que eram vinte e muitos mais.

Mas antes
quero dizer-vos do verde,
dos comboios de brinquedo
e das esplanadas onde nos intervalos do quotidiano
a noite dos dias se manifesta
euforicamente.

Porque os meninos que eram três e muitos mais
lembravam-me o tédio,
o pão nosso de cada dia.

Ai mãe!, minha mãe de cacos,
de tanto engano
e de meninos muitos lhes dizeres
que o céu é de terra.

E os meninos mais de vinte trazem o céu no ser.

Àqueles meninos muitos cresciam papoilas nos olhos
e raízes por dentro das mãos.

Aqueles meninos,
no entanto,
arrancavam as papoilas antes que murchassem.

Talvez não murchassem porque a esperança
não se abate quando se luta.

Venoi

09/11/2006 GMT 1

Descobre em mim

venoi @ 22:37

Descobre em mim as coisas mais absurdas
como se fantasmas rebeldes
se figurassem em cada esquina.

E descobre-me
mergulhando em cada pegada
e onde sintas
completa
intensos espaços em ti

Venoi

04/11/2006 GMT 1

Atmosfera descalça

venoi @ 00:20

Atmosfera descalça e olhos de espera nas mãos,
no entanto.
Por vezes, um gesto de pão
em pingos de cuspo seco que enchem a terra.

Dir-se-ia um beijo de possuir-se,
uma palavra de trapos,
aqui e ali um discurso aterrador, de perfil.

E, no entanto, ferrugem de pneus por cima
e pés de resina,
bairro de lata de prédios sobranceiros,
de olhar recalcado e comichão avulsa,
cimento breve.

Chafariz de luz roubada, as mãos.

As mãos que realizam contornos
e empurram a inércia das palavras
onde as trepadeiras esperam
e se embriagam humildecidas.

Quem sabe das raízes mais velhas?,
dos pedaços mais tenros da floresta?

Eis a moldura
que as paredes anseiam inadvertidas.

A forja.

Bairro de pétalas rasteiras,
ludíbrio fantástico
em que as circunstâncias se envergonham.
Raízes panorâmicas.

Um beijo de lata,
mãe de barro escancarado
por onde entram viris,
os gritos machos, as tocas.

A língua na boca,
na língua,
por baixo,
no delírio mais quente
quando se abrem húmidas
as janelas,
o prumo deslumbrante das estacas,
o frio,
o frio.

Estendal de lama, as pernas macias,
escorrendo onde, à noite,
as línguas molham os sexos enrugados,
tempêro exausto no delírio mais terno.

Beijo de lata amarelecida,
atirada fora quando as manhãs se ouvem na cama.

Ouro leve.

Reclame de esperma de olhos longos: um dia.

Crianças sujas de alegria,
de latas submersas, leite maduro.
Zinco atmosférico.

Formigas de seda púrpura.

À hora de nem sempre,
gelados de morango sintético.
Inventário de gelo onde me apertam os olhos
e onde procuro, a medo, uma resposta.
Um dia, criança longínqua
onde se debatem as águas.
Pregos de cinza teimosa nas latas velhas,
esperando o limbo das parábolas,
testamento de mais querer e dar,
palmos de feno seguro
no lugar de si quase vago.

As mãos sem o jeito antigo,
o tempo nem olha.

Barro clandestino,
as janelas encharcadas de pó,
os brinquedos de por aí.

Nacos de mentiras no último acto,
o ponto quase deserto,
intervalo místico de um sem fim
mecânico, querido, sereno.

Ferrugem de quem diria.

Pias de abandono,
os testículos de farrapos caídos,
sargetas refractárias no bolor mais pestil.
Varais de solidão em beijos de sol triste,

os altos moinhos deste poema.

Venoi

Arquivo | Cria o teu Blog Já! Fácil e Grátis